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Destaques do Encontro Ciência 2016

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As an exception, this post is written completely in Portuguese, due to the nature of the event. If you are not a Portuguese speaker and are interested in some highlights, please ask for some highlights in the comments or through the Contact Me section. Thank you! 

Olá a todos! Aqui estou eu de novo a escrever sobre o meu doutoramento e ciência! Aqui ficam a saber sobre uma manhã no Encontro Ciência 2016, no Centro de Congressos de Lisboa. Este é o encontro nacional de cientistas, investigadores e outros profissionais, como gestores de ciência e tecnologia, comunicadores de ciência e autores de políticas públicas. O evento é organizado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, em colaboração com a Ciência Viva, a Academia de Ciências de Lisboa e a Comissão Parlamentar de Educação e Ciência, com o apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Uma variedade considerável de tópicos de investigação e de divulgação de ciência foram apresentados e aqui vou fazer uma cobertura mais detalhada, como uma comunicadora de ciência amadora, dos dois painéis a que fui.

Mais ciência, menos burocracia

Muitos cientistas, especialmente investigadores principais, sabem qual a quantidade de tempo necessária para tratar de submissões de projetos para financiamentos, relatórios de contas e outras tarefas necessárias, e o tempo que isto tira das atividades que mais gostamos, que são fazer ciência de qualidade. Como é que isto se pode tornar menos o caso em Portugal? Foi este o mote da sessão.

A primeira oradora foi a Secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Maria Fernanda Rollo. Ela mencionou uma consulta feita a membros de institutos de investigação que teve menos respostas que o esperado e que espera que mude no futuro, mas ainda assim os resultados em termos de quais os processos mais burocratizados a mudar foram valiosos. Como resultado, surgiu a plataforma Mais Ciência, Menos Burocracia, que estará operacional em outubro. As medidas incluídas são a criação do EstudanteID desde a entrada no Ensino Superior, o Ciência ID para os investigadores e o CiênciaCV num formato unificado para várias instituições públicas, já que a necessidade de criar diversos currículos com diferentes formatos foi vista como um problema geral. Mª Fernanda Rollo descreveu a facilidade que estas medidas trarão para rastrear os feitos científicos dos indivíduos e reutilizar informação fundamental em vez de a pedir de novo diferentes vezes. Esperemos que funcione bem, parece uma boa ideia!

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A seguir falou Isabel Ribeiro da FCT. Ela realçou a importância dos Gestores de Ciência e Tecnologia para ajudar a FCT a identificar problemas burocráticos, e a necessidade de apenas perguntar a mesma informação uma só vez e reutilizá-la. Isabel mencionou também que a FCT está a fazer um esforço para tornar o seu estilo de comunicação menos formal, mas também espera que os cientistas estejam mais a par das restrições legislativas.

Nélson Sousa, Secretário de Estado do Desenvolvimento e Coesão, mencionou a necessidade de simplificar o acesso dos investigadores aos fundos comunitários e de controlar a boa utilização desses fundos. É também relevante para os investigadores saber as regulações comunitárias e os esquemas de contratação pública, mas o peso destas tarefas deve ser aliviado dos investigadores.

No final desta sessão de abertura interviu a Ministra da Presidência e Modernização Administrativa, Maria Manuela Leitão Marques. Mencionou as contribuições ousadas, e sem qualquer tipo de retorno ou incentivo, feitas por vários cientistas para reduzir as burocracias, e que todo o Governo está comprometido em simplificar os processos na Administração Pública. Maria Marques apelou também à responsabilidade social dos investigadores para colaborar nestas iniciativas de melhoria nos processos e espera que preconceitos recíprocos entre os Investigadores e os trabalhadores da Administração Pública possam ser ultrapassados para fomentar mais cooperação e melhorias eficazes.

A sala estava tão cheia que a sessão teve que ser movida para um auditório maior. Só fiquei para as três palestras seguintes porque queria assistir ao painel da minha área, Medicina Regenerativa. O painel foi sobre Desafios para a Gestão de Ciência e Tecnologia.

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A primeira oradora foi Margarida Trindade do Gabinete de Financiamento à Ciência do ITQB-UNL. Ela falou em nome do manifesto para reconhecimento das carreiras de interface em Ciência e Tecnologia e apresentou conclusões de um inquérito sobre estas carreiras. Algumas conclusões: estes profissionais necessitam de contratos de trabalho, de um plano de desenvolvimento de carreira e de ter a possibilidade de mais especialização, pois atualmente têm que dividir o seu tempo entre diversas tarefas.

Em seguida tivemos Cláudia Oliveira, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Ela apresentou a rede Bestprac de gestores de ciência e tecnologia e as três principais carreiras nesta área: Administrador de investigação, Coordenador de Ligações Europeias e Gestor de Projetos. Cláudia destacou o importante papel destes profissionais na obtenção de financiamento e estabelecimento de parcerias com outras investigações.

A última oradora que vi neste painel foi Marta Catarino (TecMinho & ASTP-Proton). A sua palestra foi sobre Transferência de Tecnologia e Valorização de Conhecimento. Foram apresentados indicadores europeus de transferência de tecnologia que parecem desanimadores, como o número de patentes concedidas por gabinete de transferência de tecnologia e o número de “spin-offs” por gabinete. Estas medidas são redutoras e outras medidas necessitam de ser introduzidas para tomar em conta a valorização do conhecimento em termos de políticas públicas, participação cívica e melhoria de qualidade de vida, já que nem todo o conhecimento pode transformar-se em tecnologia.

 

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Medicina Regenerativa

Como já referi, tive que sair mais cedo do painel Mais Ciência, Menos Burocracia para ir ao painel da minha área, Medicina Regenerativa. Este painel foi coordenado por Joaquim Cabral, presidente do iBB – Instituto de Bioengenharia e Biociências do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa.

O painel começou com Lino Ferreira do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra e do Biocant. Ele mencionou alguns dos interessantes projetos a decorrer no seu grupo de investigação sobre a utilização de células estaminais para modelação de doenças cardiovasculares e para teste de fármacos, uma plataforma de interesse para a indústria farmacêutica.

João Forjaz de Lacerda do Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa explicou o papel terapêutico de um tipo particular de células T, as Treg, que estão subrepresentadas em pacientes com doença enxerto vs hospedeiro e falou de um projeto Europeu em que está envolvido, com testes clínicos sobre a administração de Tregs nestes casos já em preparação.

Alexandra Marques, do grupo 3Bs – Biomateriais, Biodegradáveis e Biomiméticos da Universidade do Minho falou da sua investigação em estratégias de engenharia de tecidos para tratamento de feridas cutâneas, um problema que ainda causa morbilidade significativa. A matrizes de suporte para células estaminais adiposas que utilizaram para regeneração da pele estão a mostrar bons resultados no laboratório e pretendem otimizar a estrutura das matrizes no futuro, bem como fazer testes em porcos.

João Mano, do CICECO – Centro de Investigação em Materiais Cerâmicos e Compósitos (aqui está o meu antigo local de trabalho, apesar de eu não ter trabalhado nesse departamento), apresentou o trabalho do seu grupo em microambientes celulares para regeneração de tecidos. O foco do grupo tem sido em membranas com padrões para induzir diferenciação osteogénica de células estaminais adiposas (ou seja, formação de células ósseas), bem como o uso de cápsulas liquefeitas para proteger as células dos esforços mecânicos e ter um tecido a crescer dentro das cápsulas da forma mais orgânica possível.

O penúltimo orador foi Pedro Granja, do recentemente formado i3s – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto.  A sua apresentação focou-se no design de hidrogéis 3D para suporte de células. Um resultado que achei interessante e surpreendente, como o próprio disse, foi que materiais menos rígidos facilitavam a diferenciação de células estaminais mesenquimais em células ósseas, apesar de matrizes mais rígidas parecerem mais semelhantes em propriedades ao osso. Também têm estudado o efeito da conformação de hidrogéis na expressão de marcadores de cancro gástrico e provaram que matrizes 2D e 3D induzem diferentes respostas celulares.

Finalmente tivemos Catarina Brito do iBET – Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica. Foram abordados os diversos projetos em que o grupo está envolvido. Tendo uma planta piloto e uma unidade de manufatura GMP (“good manufacturing practices”, ou boas práticas de manufatura), estão envolvidos na otimização de manufatura e controlo de qualidade de células estaminais e estão até a colaborar com empresas estrangeiras na área de ensaios clínicos. Outra área em que têm estudos é a modelação de doenças e teste de fármacos, onde estão a estudar também a segurança de vetores virais para terapia génica.

Eu achei o painel interessante e diverso, com várias universidades representadas e áreas desde a investigação mais fundamental em células estaminais e biomateriais até à sua produção e ensaios clínicos. É uma área entusiasmante com um grande caminho a percorrer até se transformar em terapias disponíveis à população em geral.

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Quais foram os vossos destaques do evento e a que sessões assistiram?

Cátia

 Crédito de imagens: Ciência 2016

One thought on “Destaques do Encontro Ciência 2016

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